Por que imagens, e o que as imagens fazem
Quando Arthur Edward Waite encomendou a Pamela Colman Smith, em 1909, as ilustrações do que viria a ser o baralho Rider-Waite-Smith, ele tomou uma decisão incomum: cada carta menor — não só as Maiores — carregaria uma cena narrativa. Os baralhos europeus anteriores deixavam os numerais nus: quatro moedas em losango, dez paus enfileirados. A invenção de Waite foi pintar um instante de história em cada carta pequena, transformando os numerais em parábolas.
Waite foi explícito sobre para que serviam aquelas imagens. No prefácio de The Pictorial Key, ele escreve que “o verdadeiro Tarô é simbolismo; não fala outra língua nem oferece outros sinais”. Para ele, as cartas não são um código de definições fixas. São um alfabeto — emblemas que “se tornam uma espécie de alfabeto capaz de combinações indefinidas e faz verdadeiro sentido em todas”. Cada símbolo é uma letra; cada tiragem é uma frase composta de novo.
Por isso um atlas de símbolos é útil, mas nunca é a última palavra. Uma coroa sobre o Imperador significa domínio ratificado pelo costume; uma coroa sobre o Carro significa mestria levada ao movimento; uma coroa sobre a Morte significa a niveladora sob a qual todas as coroas caem. O glifo é o mesmo. A gramática ao redor é que muda tudo.
Sete categorias
Cor
A cor no baralho Waite-Smith é um alfabeto assumido. O vermelho é a chama da vida — desejo, ação, o sim urgente do corpo. O branco é a pureza antes do nome, a forma ainda não gasta. O ouro é o umbral solar, o instante em que uma coisa passa do comum ao sagrado. O azul é o céu das águas de cima, a intuição sustentada numa taça. O verde é o crescimento da Imperatriz, a devolução paciente da mãe do mundo. Quando duas cores se encontram numa mesma figura — manto rubro sobre túnica alva, coroa dourada sobre couraça de ferro — leia primeiro o par: o que foi temperado, o que foi desposado, o que segue em tensão.
Animal
Os bichos do tarô são o corpo dizendo o que a mente é polida demais para admitir. O leão é vitalidade crua, a serpente é sabedoria que troca de pele, a pomba é misericórdia descendo do alto, a esfinge é o enigma que guarda o umbral. Um cachorro no calcanhar do Louco é instinto leal; um chacal no pé da Roda é o catador do submundo. Os anjos — Rafael sobre os Enamorados, Gabriel sobre o Julgamento — entram aqui porque o baralho os trata como criaturas vivas: com asas, com voz, participantes. Seja qual for a fera que a carta convoque, pergunte o que ela sabe que a figura humana ao lado ainda não reconheceu.
Planta
As plantas marcam o tempo lento. A rosa é a rosa da vida, a flor da paixão refinada: branca para o desejo em repouso, vermelha para o desejo em brasa. O lírio é a planta da lua — receptivo, casto, de miolo prateado. As uvas trazem o vinho da comunhão; o trigo amarra a Imperatriz à sua terra; o loureiro coroa o vencedor de ocasião. Onde uma árvore aparece, ela costuma marcar um limite entre estados: a Árvore da Vida atrás da Sacerdotisa, os doze frutos na árvore dos Enamorados, o teixo de tronco pelado da Morte. Os yods — aquelas chamas encurvadas que caem das nuvens na Lua, na Torre e nos Ases de cada naipe — são a letra hebraica que abre cada Tetragrammaton, aqui figuradas como faíscas vivas.
Objeto
Os objetos são os quatro implementos de naipe mais toda a parafernália cerimonial que o baralho herda das oficinas medievais. Paus, Copas, Espadas, Ouros são as ferramentas elementais — fogo, água, ar, terra — e cada carta menor as ergue, baixa, amarra ou solta de mil jeitos. Além dos quatro, o baralho está entulhado de insígnias: coroas, cetros, tronos, estandartes, cálices, pergaminhos, chaves. Cada uma é um instrumento ratificado socialmente, uma coisa que o mundo combinou que significa autoridade ou ofício. Quando um objeto assim aparece numa carta, pergunte quem o autorizou — e o que aconteceria se aquela chancela fosse retirada.
Geometria
A forma pura carrega sentido mesmo sem figura. O triângulo é fogo subindo ou água descendo, a trindade, a menor forma estável. O quadrado é terra, matéria, o mundo em quatro. O círculo é completude; o pentagrama é a figura humana inscrita em estrela; a cruz é o encontro de dois eixos, com o sofrimento no ponto de cruzamento. Onde a geometria aparece à mostra — a cruz em T do Enforcado, o pentáculo sobre o disco, o lemniscato do infinito sobre o Mago e sobre a figura da Força — a carta está te contando o padrão que corre por baixo da história, e não só a história em si.
Postura
Os corpos do baralho falam tão alto quanto seus adereços. Um braço erguido é uma reivindicação; uma cabeça baixa é uma cessão; braços cruzados protegem; braços dobrados contra o peito recusam. A inversão do Enforcado é o argumento inteiro da carta. O aperto rígido do Imperador no trono é sua dádiva e seu limite. O passo leve do Louco é o oposto do peito fechado do Quatro de Ouros. Leia a figura antes dos adereços: o que este corpo quer, o que ele defende, para onde a atenção dele de fato aponta.
Paisagem
O terreno atrás da figura raramente é enfeite. As montanhas são o trabalho distante ainda não escalado, ou a memória ancestral que se recusa a diminuir. A água é sentimento: charco parado, córrego corrente, mar de tormenta — cada um um humor diferente da vida interior. Um castelo no horizonte é a pátria alcançada; uma cidade murada é segurança que também pode ser cerca. Trilhas, estradas, pontes, umbrais — onde a carta oferece uma rota, ela está perguntando se a figura vem de ou vai em direção a. O sol e a lua no alto não são clima, são qual das duas mentes está desperta agora.
Percorra o atlas
Escolha uma categoria. Cada célula mostra o rótulo canônico de um símbolo e o número de cartas em que ele aparece. Toque numa célula para ver essas cartas.
Ler os símbolos em combinação
Uma vez familiarizado o atlas, o próximo passo é a gramática. Mary Greer ensina que uma carta de tarô deve ser lida primeiro como uma relação entre símbolos, não como a soma deles. Pergunte: quais imagens estão em contraste (vermelho contra branco, ao direito contra invertida), quais imagens ecoam umas às outras (três taças erguidas no Três de Copas, três figuras erguidas no Julgamento), quais imagens caem no primeiro plano e quais recuam para o fundo.
Primeiro plano versus fundo é o corte mais útil. O objeto do primeiro plano é aquilo de que a carta fala às claras; a paisagem do fundo é aquilo de que a carta fala baixinho. Uma figura com uma taça dourada em primeiro plano e um mar de tormenta atrás não é a mesma carta que uma figura com uma taça dourada em primeiro plano e um porto calmo atrás, mesmo que todos os outros detalhes batam. Treine o olho para enxergar as duas camadas ao mesmo tempo.